Vânia Hernandes (Julho 2002)

1. Fiz a mesma pergunta para a Vanira, mas também quero ouvir sua versão: Como foi que você começou a jogar basquete, aonde, com quantos anos e por quê?

 
Conheci o basquete nas aulas de Educação Física da escola em que estudava. Era o esporte que mais me atraía, pois exigia muita precisão e inteligência. Procurei o SESI para poder fazer só basquete, mas o professor de lá disse que basquete não era o meu esporte. Isso foi por volta de 1977.

Continuei, então, na escola, participando de jogos escolares, torneios internos. Em 1978, fui para o clube da Mooca, onde o professor José Roberto deus os primeiros treinos. Essa época foi muito importante para mim.

No fim de 1978, eu acompanhava os jogos da seleção brasileira pela televisão. Minha tia Olga conhecia uma pessoa cuja sobrinha jogava no Thomaz Mazzoni e vendo meu interesse pelo esporte, me colocou em contato com a Eliana, que jogava no clube.

Descobri que o [técnico] Aílton [Pereira Bueno] estava em Santos junto com o [técnico Antônio Carlos] Barbosa, comandanso os treinamentos da seleção brasileira. Fui até lá, conversei com ele, fiz um teste e no ano de 1979, estava jogando pela Federação Paulista de Basquete (FPB), na Vila Maria.

2. Você já começou jogando como pivô? O que te chamou atenção na posição de pivô, mesmo tendo uma estatura não tão elevada?

Foi o Aílton que me colocou como pivô.

Naquela época, não havia jogadoras altas. Me lembro apenas da Marta, da Tereza Boscariol, da Vanda e da Cristina Punko.

Acabei me identificando com a posição, pois tinha que treinar muito para jogar de costas para a cesta.

Era desafiador jogar com atletas maiores que eu e sair-me bem, principalmente ganhar um rebote.

3. Quem era seu maior ídolo no começo da carreira?

A Cristina Punko.

4. Fale um pouco dos clubes que você passou no início da carreira e os títulos conquistados.

Joguei na Vila Maria, a partir de 79, onde fui campeã infantil e juvenil. Lá ganhei o título de revelação dessas competições, pela FPB.

Depois, foi para o Higienópolis, de Catanduva, onde fui campeã da primeira edição do Campeonato Sul-Americano de Clubes.

Passei ao Bauru Tênis Clube, onde fui Campeã do Torneio das Estrelas, em Piracicaba.

Na Prudentina, fui campeã paulista, brasileira e sul-americana.

Depois, fui contratada pela Unimep, de Piracicaba, em 1986.

5. Quando veio sua primeira convocação para a seleção brasileira? Com que técnico? Para que torneio?

Minha primeira convocação foi para o Sul-Americano Juvenil em Lima (Peru), com o técnico Edson Ferreto. Agradeço a ele por ter me ensinado a jogar como pivô e quão difícil seria.

6. Perguntam mil vezes para Hortência e Paula da passagem da conquista do Pan, de Havana (1991). Mas e você? O que conta deste torneio e da emoção da vitória contra as cubanas?

O Pan-Americano de Havana foi a arrancada do basquete feminino para o sucesso.

Pra mim, foi um momento especial.

Eu tinha parado de jogar há poucos anos e me afastado do basquete por causa de brigas com dirigentes da Confederação Brasileira de Basquete (CBB). Nunca escondi o que pensava, mas ninguém gosta de ouvir críticas de uma atleta.

Graças à luta da [técnica da seleção] Maria Helena Cardoso, e da Hortência, que me levou para seu time em Sorocaba, consegui dar a volta por cima e voltar à seleção.

O importante no Pan é que o grupo estava unido e centrado no objetivo, munido de muita humildade, companheirismo e espírito de equipe. Essa foi a receita que nos levou ao título.

Ouvir o hino do Brasil, ver a bandeira no mastro mais alto e beijar o [presidente] Fidel Castro, com a medalha no peito, são emoções que jamais esquecerei.

Nós merecemos.

7. Andei revendo os jogoss da campanha do Pré-Olímpico de Vigo (1992) e em muito deles, você tem atuação destacada, mesmo com até mais de 20 cm de diferença para a pivô adversária. Fale um pouco desse torneio e da emoção da classificação.

1992 foi o meu melhor ano como atleta. Estava jogando muito. Me desculpe a modéstia, mas ganhei o troféu de melhor jogadora e fui como titular da seleção.

Sempre fui uma atleta que treinava muito. Isso me dava muita confiança. Esatava preparada.

Mas perdemos os dois primeiros jogos do Pré-Olímpico. E como sempre doi em minha carreira, “a Vânia Hernandes era baixa para pivô” e aí o Brasil tinha que sair com a equipe campeã do Pan [com Ruth e Marta].

O que me chateava era que eu era reboteira, marcava bem e estava jogando bem. Me irritava o [comentarista da Tv Bandeirantes] Álvaro José, me criticando o tempo todo!

Eu tinha a confiança da Maria Helena e da equipe, mas os dirigentes – que só vão para atrapalhar – fizeram de tudo para que eu fosse para o banco. E conseguiram.

No jogo contra a Bulgária, a equipe saiu jogando com a equipe do Pan. Não liguei. Fui e joguei melhor ainda em outra posição [a de ala de força].

Todas estávamos muito bem e a Maria Helena pôde contar com a equipe toda.

Estávamos confiantes na vaga, por isso minha tristeza foi passageira, já que não podia ser maior que o sonho de chegar a uma Olimpíada.

Tive o apoio das minhas companheiras e saímos vencedoras!

8. E as Olimpíadas de Barcelona (1992)? Que lembranças você guarda do torneio? Ainda é triste lembrar dele, já que o Brasil já tinha condições àquela época de garantir uma medalha?

Devido aos aconteceimentos pessoais no Pré-Olímpico, fui um pouco desmitivada para Barcelona. Mas confesso que isso passou já no desfile de apresentação. Foi emocionante, lindo e único.

Fiquei triste por não termos conseguido uma medalha, mas demos um passo importante na história do basquete feminino brasileiro.

9.Por que você acha que o Brasil não chegou mais longe em Barcelona: nervosismo, problemas internos, deficiência técnica ou outros motivos?

Não chegamos a uma medalha porque não era a hora. É normal você conseguir uma classificação e se cobrar e ser cobrada para trazer uma medalha.

Não sou de culpar ninguém, pois ganha-se e perde-se juntos.

Acredito que a ansiedade e o nervosismo atrapalharam.

Mas plantamos uma semente que deu frutos dois anos depois, no Mundial da Austrália.

10. Sua última convocação para a seleção foi justamente a dos Jogos Olímpicos. Você e uma série de outras jogadoras já não estavam no time que foi coroado na Austrália em 1994 (Vânia Teixeira, Vanira, Zezé, Joyce, Marta, Branca e Nádia). Foi triste não estar nessa hora na seleção? Deu raiva?

Vinha de uma cirurgia no joelho, mas mesmo que estivesse jogando um bolão não seria convocada. Nunca fui das preferidas dos dirigentes e meu ciclo com a seleção se encerrou em Barcelona. Sempre encarei a ida para a seleção de forma natural e o fim dessa história também foi natural.

Houve renovação no time, surgiram excelentes pivôs e tínhamos a segurança que Paula, Hortência e Janeth estariam lá para levar o time.

Raiva não deu. É um sentimento muito pequeno diante de tudo que o basquete me deu e tinha para me dar.

11. Qual foi seu momento mais especial com a camisa da seleção?

Foi a partida contra a Austrália, que vencemos na segunda prorrogação, no Pré-Olímpico.

12. Sorocaba foi um clube importante na sua carreira. Fale um pouco do tempo que você passou no clube, das conquistas e da importância dele na sua carreira.

Joguei apenas dois anos em Sorocaba, mas foi o momento mais importante da minha carreira. Devo isso ao [dirigente de Sorocaba] João Caracante, à Hortência, ao [técnico] Antônio Carlos Vendramini e, em especial, a minha irmã Vanira, que fez a cabeça deles todos para me trazer para Sorocaba e para que eu voltasse a jogar basquete, depois do tempo que fiquei parada.

Desculpe a falta de humildade, mas joguei muita bola aqui em Sorocaba, uma equipe que tinha a Hortência, a Marta, a Janeth e a Vanira. Todos me apoiaram, me deram valor e confiarem em mim.

No time da Constecca Sedox, havia companheirismo e união e isso me fez muito bem.

13. Uma outra partida em que você se apresentou muito bem foi a final do Mundial Interclubes, em 1991, contra o BCN. Fale um pouco dessa decisão.

Era a decisão do primeiro Mundial Interclubes. Um título importantíssimo para qualquer jogadora, com equipes fortes e sem favoritos. A decisão entre duas equipes nacionais só veio coroar o sucesso do basquete brasileiro. Principalmente porque se tratava do BCN, o nosso eterno rival, com Karina, Paula, Nádia e mais uma estrangeira [a norte-americana Adrienne Goodson].

Foi uma grande partida. Nossa equipe soube aproveitar o momento de cada jogadora. Não houve vaidade pessoal, ao contrário do BCN, que jogava em função da Karina e pouco aproveitou a Paula.

Jogamos como uma verdadeira equipe e demos de presente para a cidade de Sorocaba e pelo João Caracante que muito fizeram por nós e pelo basquete.

14. Foi um baque para você também a o fim do time do Leite Moça?

Não fiquei triste com o fim do time. Já não éramos mais a mesma equipe que ganhou o Mundial. O ambiente era outro com a entrada de novos dirigentes. Senti pela Vanira, que amava o time e peloa basquete, que perdeu um grande patrocinador.

15. Como foi o recomeça na Lacta – Santo André, ainda enfrentando uma contusão?

Foi ótimo, tive todo o apoio da [técnica] Laís Elena e da [assistente] Arilza.

Sempre fui batalhadora e você se sente mais segura trabalhando numa equipe com pessoas honestas.

16. Quais as melhores lembranças que você guarda da passagem por Santo André?

Não foram os títulos de campeã paulista [1995, contra a Unimep-Piracicaba] e dos Jogos Abertos [1995, contra Seara-Paulínia]. Mas sim a amizade que fiz com pessoas que trabalhavam na equipe, e por ter conhecido duas pessoas fantásticas que muito acrescentaram na minha formação como ser humano: a Laís e a Arilza.

Não posso esquecer da Márcia Regina, nossa psicóloga, a Tia Elsy, a Tuca e a Ianê, que me ensinaram inglês e me trataram como uma filha.

17. Em 1996, quando o Santo André perdeu o patrocínio, você acabou se transferiando para um timr muito modesto: o Jomec, de Rio Preto. Fale um pouco dessa passagem e do Paulista desse ano.

Não tenho do que reclamar dessa experiência. O Paulista de 1996 foi ótimo pra mim, até fui incluída na seleção de ouro do campeonato. Trabalhei com o [técnico já falecido] Grafitinho, excelente como técnico e pessoa.

Mas tive a tristeza de trabalhar com pessoas desonestas e conhecer esse lado do basquete, que até então eu não tinha tido contato mais profundo. Tinha muita gente ruim lá, foi triste.

18. No ano seguinte, o time passou por problemas financeiros e você acabou sendo incorporada à Micocamp para cobrir a contusão da armadora Branca, na Copa América. Fale um pouco dessa passagem por Campinas.

Não merece comentários.

19. No I Nacional, você disputou pela cidade de Canoas (RS), com a ULBRA. Fale dessa experiência.

A ULBRA tem uma grande estrutura. Pode manter qualquer esporte de alto nível. O Paulinho [Bassul] é um excelente técnico e o [José] Medalha lutou muito para que a equipe disputasse o campeonato.

Acredito que a escolha das estrangeiras [as norte-americanas Darla Simpson e Shyronda Myfflin] não foi acertada. Poderíamos ter feito uma campanha melhor se outras estrangeiras estivessem lá. Mas veleu muito jogar lá.

20. Você enfrentou novamente problemas físicos nos últimos anos. Gostaria que você falasse dos últimos cubes que você passou: Santa Bárbara, Avaré e Campinas.

Nunca mais fui a Vânia Hernandes depois de minhas contusões. Era uma jogadora pela metade. Era assim que eu me sentia. Lutava muito para vencer as dores terríveis que tinha nos joelhos, a cobrança pessoal de ter que jogar como antes e as humilhações que passei.

Todas as equipes que joguei nessa situação me ajudaram muito, trabalharam para amenizar um pouco a minha situação, mas não estava neles a solução. Estava em mim. Era a hora de parar.

Avaré tentou montar uma equipe competitiva. Mas não se monta uma equipe só com boas jogadoras. Tem que haver estrutura desdde o patrocinador até a comissão técnica. Por isso não deu certo.

Campinas era aquela luta: patrocinador e equipe fortes e muitas cobranças. Acredito que a Karina até buscou o certo, mas se perdeu na condição de jogadora e dirigente. Só pode ser uma ou outra.

Santa Bárbara foi bom. Tínhamos uma grande técnica e amiga, a Nilcéia [Ravanelli] e dentro das condições, a equipe foi bem. Me sinto um pouco culpada por ter saído da equipe pela segunda torção no joelho. Sei que eles precisavam de mim. Em equipe pequena, cada jogadora é fundamental. Poderíamos ter ido melhor.

21. Sua baixa estatura para a posição já lhe trouxe muitos problemas?

Foi duro. Se a equipe ganhava, ou eu era elogiada ou nem se lembravam de mim. Quando a equipe perdia, eu era baixa, principalmente na seleção brasileira. Mas tudo bem, porque a crítica vinha de quem não sabia nada de basquete.

Nunca tive medo das críticas. Elas servem para você melhorar, principlamnente se partem de um técnico ou de uma colega que quer o seu bem. Basta ter humildade para reconhecer os erros e assumí-los.

O importante é que quem trabalhou comigo sempre confiou em mim. Isso basta.

22.Sua principal característica em quadra sempre foia garra. Uma guerreira sempre.Você sempre foi naturalmente assim em quadra? E fora dela?

Você é dentro da quadra o que é fora dela. Sempre fui muito aguerrida e determinada a conseguir tudo o que quis na vida. Faz parte da minha personalidade e filosofia de vida.

23. Por que hoje não temos jogadoras com esse mesmo estilo de jogo: a raça, a disposição para o embate?

Vai ver que é porque hoje tudo vem fácil. Não precisa de muita luta. Mas, como disse, isso faz parte da personalidade de cada um.

24. Como excepcional pivô que você foi, quem são, na sua opinião, as grandes pivôs da história do nosso basquete?

Não tive a oportunidade de ver a geração anterior a minha jogando, mas sei que tinha grandes pivôs. Gosto da Cristina Punko, da Marta, da Alessandra e da Cíntia Tuiú.

25. A Vanira falou bastante do Centro de Formação de vocês. Mas é um projeto tão apaixonante que eu queria ouvir mais sobre ele.

A idéia veio da Vanira. Ela já teve uma escola aqui e, Sorocaba. Mas eu achava dificil abrir um Centro de Formação sem recursos e com a crise que o basquete passa. Mas logo abracei a idéia, pois seria egoísmo não passar para outros aquilo que aprendemos e vivemos no esporte.

Nosso trablaho não é restrito à formação de atletas, pois muitos podem não vir a ser um. Destacamos a importância da atividade física para o corpo, respeitando a idade, a maturação biológica, os problemas que a iniciação precoce pode acarretar, a boa alimentação e a obrigação de que todos estudem e tenham boas notas para continuar conosco.

26. Quais seus planos com o Centro?

Continuar trabalhando para dar o melhor a cada dia.

27. E para o seu futuro: o que você planeja?

Estou fazendo a faculdade de Educação Física, mas apesar de trabalhar com o basquete, não pretendo ser técnica. Gosto de desenvolver projetos, pesquisas. Não sei que rumo vou tomar.

O basquete sempre fará parte da minha vida, mas o futuro a Deus pertence.

28. É um sonho muito distante pensar em ver Sorocaba de volta ao basquete de alto nível?

Com a mentalidade das pessoas que comandam a cidade e com o descrédito que o basquete tem com a iniciativa privada, sim.

29. Quais são suas expectativas para o Mundial da China, em setembro?

Muitas jogadoras estão atuando fora do país. Acredito que contando com a Janeth, a Alessandra e a Cíntia e agora com a Iziane, que está jogando um bolão, o Brasil tem grandes chances de fazer uma boa campanha.

30. Bate-Bola:

Uma cidade: Piracicaba
Um filme: Amor Além da Vida
Uma música: qualquer uma do Frank Sinatra, especialmente “I’ve Got You Under My Skin”

 
I’ve got you under my skin
I’ve got you deep in the heart of me
So deep in my heart, that you’re really a part of me
I’ve got you under my skin

I’ve tried so not to give in
I’ve said to myself this affair never will go so well
But why should I try to resist, when baby will I know so well
That I’ve got you under my skin

I’d sacrifice anything come what might
For the sake of having you near
In spite of a warning voice that comes in the night
And repeats, repeats in my ear

Don’t you know you fool, you never can win
Use your mentality, wake up to reality
But each time I do, just the thought of you
Makes me stop before I begin
‘Cause I’ve got you under my skin

 

Um prato: Yakssoba
Um(a) técnico(a): Maria Helena e Laís
Uma marcadora: a Nádia
Uma quadra: a do Guarani, em Campinas
A melhor jogadora que eu vi jogar foi: Hortência
Um título: Campeã Pan Americana
Um time: Santo André/Lacta
Uma colega: duas amigas – a Nilcéia e a Aide
Uma revelação: Iziane, a melhor que apareceu
A bola que eu chutei e caiu: jogar basquete
A bola que eu chutei e não caiu: não ter feito faculdade antes
Minha maior virtude dentro de quadra: a garra
Meu pior defeito dentro de quadra: pela minha estatura, não ter arremesso de três pontos
Minha maior virtude fora de quadra: Brasil X Austrália, em Vigo
O jogo que eu tento esquecer, mas não consigo: Final do Pan, em Indianápolis, 1987, contra os EUA
Um sonho: é pessoal. Prefiro não responder.
 

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: