Magic Paula (Parte II – Outubro 2002)

1. A participação no Brasil no Mundial da China foi decepcionante para todos. Gostaria de voltar um pouco no tempo e comentar alguns pontos da nossa preparação. Primeiro, o que você achou de Barbosa ter relacionado 25 atletas, quando 11 já estavam escolhidas?

Se a gente for pensar que era para dar experiência para as mais novas, tudo bem!

Agora porque não montar entao uma equipe B? Sabendo que a grande maioria não ficaria.

2.Você acha que a escolha das doze foi justa? Ou apenas previsível?

No Brasil, temos mania de selecionar pelo nome e não pela atuação. Principalmente para algumas que estavam fora de forma, sem ritmo de jogo e que enfim nao jogam mesmo. Este fato de ser previsivel acaba gerando acomodação.

3.Você foi uma das únicas pessoas que questionou de Barbosa o privilégio de jogadoras ainda juvenis, Iziane e Érika no caso, terem cadeira cativa na seleção. Ele respondeu dizendo que elas eram “diferenciadas” e mereciam essa deferência. Mas não é muito estranho ver uma jogadora diferenciada como a Érika, fora de forma em um Campeonato Mundial e jogando poucos minutos em todo o torneio?

O que eu questiono é a qualidade da WNBA, o que me parece é que so ter um empresário com acesso ao meio, que acaba jogando lá. Meninas na idade delas por mais fenômeno que sejam, tem que saber lutar pelo espaço e valorizar uma seleção adulta.

4.O Brasil sempre chamou a atenção mais pelo ataque do que pela defesa. Hoje temos um dos ataques mais pálidos do mundo. No Mundial, em 80% dos momentos o lance era o chute de Janeth na cabeça do garrafão ou então o passe de Cíntia para Alessandra debaixo da cesta. Por que o nosso jogo é assim tão repetitivo? Deficiência do treinador? Das atletas? Ou falta de tempo de treinamento?

Simplesmente falta de treino, de conjunto. Uma equipe que sai do Brasil pensando em estar entre os primeiros, não pode menosprezar tanto o basquete praticado no mundo.

Teve jogadora que mesmo estando no Brasil, preferiu encontrar a delegação no aeroporto.

5.Não sei se é coincidência ou um karma. Mas a sua saída e a da Hortência deixaram buracos na seleção que não conseguem ser preenchidos. No seu lugar, já passaram Helen, Silvinha, Claudinha e Adrianinha. No de Hortência, Leila, Helen, Silvinha e Adriana. As camisas 4 e 8 pesam mais que as outras?

Não existe substituição e nem superstição. O problema do Brasil foi buscar jogadora alta por muito tempo, hoje tem.

Esquecendo que uma equipe precisa tambem de laterais, armadora….

6.Por falar nisso, o que você achou do desempenho da Adrianinha neste Mundial, ocupando, a posição de armadora titular?

Foi a surpresa agradável. Amadureceu, sabe o que quer, apesar da sua baixa estatura. Foi muito bem, lutou!

7.Algumas jogadora parecem não conseguir render na seleção o que rendem nos clubes. Nesse Mundial, Adriana e Silvinha foram exemplos dessa característica. Pergunto a você que já esteve lá: por que isso ocorre?

Adriana foi para o basquete francês, não sei se treinava dois períodos. Ela é o tipo de atleta super treinada.

A Silvinha não reune as características que agradam o Barbosa, mas ele acabou precisando dela, com a contusão da Helen, que pra mim é a grande líder do time, acabou não tendo a Silvinha, perdeu a confiança.
8.Desde que Barbosa assumiu, a seleção teve algumas conquistas, mas pouco brilho. Em torneios importantes, a marca sempre foi a irregularidade. Assim foi no Mundial de 98, que você participou, no Pan Americano de 99 (depois de uma fase invicta, perdemos tudo nas semifinais), no Pré-Olímpico do mesmo ano (derrota para Cuba na final), nas Olimpíadas de 2000 (um bronze que veio mesmo com muitos sustos e derrotas) e agora, no Mundial de 2002. Talvez os melhores momentos do treinador tenham sido na Copa América 97 e na de 99, mas não são torneios com o mesmo peso dos anteriores, e os dois foram disputados no Brasil. Por que essa irregularidade crônica?

Porque diferentemente de uma Maria Helena por exemplo, o Barbosa cobra pouco da CBB na questão das preparaçoes. Barbosa faz o que pode, nunca o necessário.

Adoro ele, mas peca porque prefere omitir do que brigar.

9.Sabemos que alguma coisa tem que mudar. Primeiro queria falar um pouco do papel da CBB. Você viveu as duas gestões. Queria que você falasse um pouco de como foi a gestão Brito Cunha, e agora, com o Grego, em quê avançamos, em quê estagnamos e em quê retrocedemos?

As reclamações sao sempre as mesmas: de que não tem dinheiro. Não tem dinheiro quando tem patrocínio, não tem dinheiro quando não tem patrocínio, mas tem lei Piva.

Nao é uma questao de revolta, mas o machismo ainda impera no esporte, as mulheres (apesar de ter conquistado todos os titulos nos ultimos anos) são jogadas para escanteio. Pelo menos na minha modalidade.

10.Barbosa está há quase 7 anos no comando da seleção, acumulando seleções de base e a equipe adulta. Mesmo que ele tivesse ganhado tudo, não era hora de mudar, de reciclar?
Mudar talvez o conceito, pois retrocedemos. O fato do técnico da seleçao adulta comandar todas as categorias, fechar acordo com hotel, ir ao supermercado, arrumar os uniformes… Isso é coisa do passado.

Acho ele um bom técnico, para cuidar dos treinos e dos jogos, função do técnico.

Ser um técnico permanente é muito interessante desde que seja uma seleção que tenha intercâmbio.

Eu joguei com o Barbosa de 1994 até 1998, arrebentei, pois ele sabe das coisas. O que não pode é acumular as funções.

11.Estou realizando uma enquete sobre esse assunto e, até o momento a técnica Maria Helena Cardoso desponta como a predileta dos torcedores para reassumir a seleção. Você que já conviveu exaustivamente com ela em bons e maus momentos, o que acha dessa possibilidade?

Neste momento de transição de algumas jogadoras, acho que estilo mais rígido da Maria Helena poderia ser uma opção.

12.Você também já trabalhou com o Paulo Bassul, que tem sido um dos técnicos mais prestigiados pela CBB nessa gestão e que atualmente é o assistente técnico. O que você acha do trabalho dele e da possibilidade dele assumir?

Seria o técnico ideal para as categorias menores. Passaria pelo processo natural de amadurecimento.

13.Gostaria que você comentasse os outros nomes da enquete: Vendraminni, Ferreto, Laís e Miguel Ângelo?

São nomes consagrados no meio do basquete feminino, que reúnem as condições necessárias para dirigir uma equipe de alto nivel.

14.Algumas jogadoras da sua geração tentaram montar projetos para fortalecer o basquete interno e acabaram fracassando. Hortência foi a primeira. A Branca já esteve envolvida com a formação de times. E, por último, a Karina. Por que você acha que as três não foram bem-sucedidas em suas tentativas?

Os motivos são de uma maneira geral do esporte, a falta de uma politica esportiva e o salto que o esporte amador deu no país, com salários altíssimos. O momento talvez seja de um retrocesso, ou melhor, de pé no chão.

 
15.Você não acha que Hortência e você fazem falta ao meio, pela atração de mídia, patrocinadores, prefeituras, etc?
Não tenho duvidas, mas este dia poderá chegar de alguma maneira. A gente não pode estar de fora, temos muito que contribuir para o basquete brasileiro.

16.Com os poucos recursos que nós temos, o que dá para ser feito agora para impedir que o basquete feminino perca ainda mais?

União de todos os segmentos envolvidos com o basquete, algo que estamos falando faz tempo.
17.Como você enxerga essa saída vertiginosa de meninas para o exterior. Antes era um questão de status. Hoje não, atletas juvenis já fazem contratos no exterior. O que podemos fazer para evitar novos problemas?

Significa uma questão de sobrevivência. Para que possamos tê-las de volta devemos dar condições.

 
18.No meio de tantos problemas, você ainda enxerga uma luz no fim do túnel para o basquete brasileiro?

Sim. Sempre enxerguei, mas jamais as pessoas sao chamadas para discutir, para contribuir. Me parece uma atitude como dos politicos, quanto mais alienadas e afastadas as pessoas que gostam estiverem, melhor!

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