Karina Rodrigues (Junho/2003)

1) Karina, comecemos pela Argentina. Quando e como você conheceu o basquete? Conte-nos o começo da sua história com a bola.

Comecei as 13 anos no esporte Clube Crovara. Tentei vários esportes e o que mais gostei foi o basquete. Já era alta, o que deixava as coisas mais simples. Foi um começo normal.

2) Quais eram suas principais referências no basquete argentino e internacional, no começo de carreira? Em quem você se inspirava?

Na Argentina, o basquete não era conhecido. Então eu não tinha ídolos a seguir. A divulgacao internacional era inexistente. Então apenas aprendia o esporte.

3) Você tinha alguma informação sobre o basquete brasileiro?

Não, tive meu primeiro contato quando fui a garota que segurava a placa da Unimep no Torneio Sulamericano de Clubes. Esse time tinha a Paula , a Vânia Texeira, a Vânia Hernandes, a Maria Helena, a Heleninha e etc. O mundo é pequeno!

4) Sua relação com o Brasil começou a se desenhar quando as Marias Helenas Cardoso e Campos a viram jogar. Que torneio era esse (Sul-Americano? Copa América?) e me fale um pouco sobre sua participação nele.

No Sul-Americano de Cadetes, a Argentina foi campeã , superando uma fortíssima equipe brasileira. Depois no Sul-Americano Juvenil, pela primeira vez na história ganhamos do Brasil, e fomos campeãs. Nesses torneios, joguei muita bola e aí começou minha história no basquete brasileiro.

5) Como foi o primeiro contato com a Maria Helena? Ela logo lhe fez um convite para vir jogar no BCN?

Ela brincou comigo e falou que algum dia seria minha treinadora. A Paula me deu a camisa dela como souvenir. Logo após os sul-americanos, ela me fez um convite para jogar nas categorias de base da Unimep. Quando cheguei, a equipe principal foi desmontada e assim as garotinhas Karina e Janeth também jogavam na equipe principal.

6) Como você definiria seu primeiro mês no Brasil?

Difícil, apaixonante, saudades da família, esperança, conquistas, choro, risadas e dificuldades eternas com o português. Enfim, demais!

7) Qual foi o primeiro torneio que você disputou por um clube no Brasil?

Foi um torneio juvenil. Mas o melhor foi a conquista da taça brasil sobre o time da Magrela Hortência com um time super jovem no
ginásio do Corinthians com mais de 12000 pessoas assistindo. Foi o primeiro título do BCN.

8) Você teve uma passagem pelo basquete espanhol. Fale um pouco dessa experiência.

Foi demais. Fui contratada por 3 meses porque minha equipe estava muito mal. De repente melhoramos, fomos campeãs da Copa da Rainha e
terminei ficando por mais 3 temporadas. Foi muito legal e guardo grandes lembranças.

9) Com certeza, a cidade que você mais se identificou e onde passou os melhores momentos de sua carreira foi Campinas. Queria que você falasse um pouco do time da Ponte Preta, formado em 92, da migração de atletas do BCN-Piracicaba e que foi campeã paulista daquele ano, batendo o Leite Moça-Sorocaba, de Hortência.

Foi o melhor time de basquete de toda a história mundial. Tínhamos grandes jogadoras, um grande time, um corpo técnico da melhor qualidade e uma torcida que lotava o ginásio sempre. Além disso, morar em Campinas é uma experiencia inesquecível!

10) Mais ou menos nessa época você se definiu pela naturalização. O que te levou a essa decisão? Você se lembra do dia em que disse: “Quero ser brasileira!”, quando e como foi?

Amei este país desde o primeiro dia, e o mais lógico seria querer ser parte dele. Quem se naturalizou foi a mulher e não a jogadora, isso tem que ficar sempre claro. A gente não pode escolher onde nascer, mas pode escolher onde quer viver e ser feliz.

11) No Brasil, você logo se tornou uma estrela. Foi estranho receber tanta admiração e reconhecimento em um espaço de tempo tão curto?

Trabalhei muito para isso e além disso tive o apoio de grandes amigos. Acredito que tudo tem um por quê e graças a Deus, nunca sofri nehum tipo de preconceito.

12) Você já jogou com e contra alguns dos maiores nomes do basquete mundial. Se você fosse escolher aquele que mais lhe impressionou, quem seria?

Paula e Hortencia, o resto são apenas boas jogadoras.

13) E a pivô que te deu mais trabalho, quem foi?

Quem me defendeu melhor foi a Vânia Hernandes; sem dúvidas um carrapato. Para defender, foi a Katrina MC Klein, jogadora americana.

14) Você jogou com e contra Paula e Hortência, separadas e com as duas juntas. Quais são as diferenças entre elas em quadra e como adversárias?

As duas são extremamente profissionais. Jogar com elas foi um prazer. Sem falar que todo mundo marcava elas e eu ficava livre! (Risos).

Aprendi muito com as duas. A Magra é mais durona e fria, mas me ensinou a ser professional. Ainda quis me ensinar a andar a cavalo!!! (Risos).

A Paula é uma amiga do peito. Me deu conselhos, me ajudou e sempre tinha uma piada para me alegrar. Grande sucateira!

Como adversárias, Deus me livre! Resumindo: um inferno!!!!

15) Qual o título que você guarda com maior carinho? Por quê?

Os 4 títulos Mundiais Interclubes. Por causa de não poder jogar pelo Brasil foi uma forma de retribuir o carinho que o povo sempre me deu.

16) Penso que deve ser doloroso pra você lutar tanto pela naturalização e depois não ter tido a possibilidade de jogar pela seleção. Como você enxerga seu caso e a condução que a FIBA deu a ele?

Ridiculo. Acho que a CBB bobeou!

Mas o destino é assim e tem coisas que nem o Freud explica.

17) Ao fim da Ponte Preta, você foi a Santo André. Como foi jogar com Janeth e com a técnica Laís, no time que conquistou o campeonato paulista de 1995?

Muito bom. A Lacta não conseguia conquistar títulos e acho que a união minha com a Janeth deu certo. Além disso, a Laiz é uma das melhores treinadoras do Brasil. Sabe obter o máximo de uma atleta. Devo muito a Laiz e a Arilza. Elas foram grandes amigas.

18) Logo após, você passou duas temporadas em Americana. Fale dessa experiência.

Bom, títulos, lutas por patrocinadores… Mais uma bela experiência. A Magra como diretora não é facil! (Risos).

19) Em seguida você volta ao BCN e ao comando da técnica Maria Helena Cardoso. Como foi essa decisão e a frustração de se contundir na primeira rodada do primeiro Campeonato Nacional?

Nunca tinha me machucado. Foi difícil, mas tive todo o apoio do BCN. Lutei muito e graças a Deus, não ficaram sequelas.

A liga podia esperar. Era apenas a primeira!

20) Fale da vitória sobre o WNBA team.

Brasileiríssima! Mostramos que elas deviam abaixar a bola. Era muita metidez para o meu gosto. Menos! Marketing é importante, mas dentro da quadra… é ripa na chulipa!

21) No Nacional do ano seguinte, você acabou dispensada para que o BCN pudesse ficar com Paula, por causa do ranqueamento. Foi um golpe duro?

Faz parte. No esporte de alto nível, tem que ser professional e eu sabia que depois da operção no joelho devia mostrar que não tinham ficado sequelas.

22) Após, você foi a Recife, onde jogou o Nacional, pelo Sport. Fale dessa passagem.

Foi otimo. Fui a cestinha e reboteira da Liga Nacional. Mostrei para todo mundo que estava de volta. Foi uma ótima escolha.

23) A partir daí, você tentou passar a comandar projetos e montou times em que você era jogadora e dirigente em Campinas e Jundiaí. Apesar de bem-intencionados, os projetos não tiveram sucesso. Por quê?

Faltou experiência. Mas nao me arrependo. É melhor errar tentando, do que se omitir e ficar apenas criticando. Queiram ou nao, dei emprego a muitas jogadoras e posso afirmar que a nossa estrutura era de primeiro mundo.

24) Você lutou bravamente por patrocinadores e conseguiu dois grandes (Quaker e Knorr). Por que os patrocinadores não se interessam pelo basquete?

Não sei. Acho que não temos estrutura de marketing. Acho que a fama de ser um esporte homosexual atrapalha o interesse de patrocinadores. Sem contar as péssimas e eternas administrações das pricipais entidades de nosso esporte.

25) Depois de conseguido um patrocínio, quais são as maiores dificuldades em se manter um time competitivo de basquete no Brasil?

Mídia televisiva e a inexistência de uma lei de incentivo fiscal. Exemplo: A TV fala o nome da cidade e não o nome do patrocinador.

26) Nesse meio tempo, você participou de uma pré-temporada na WNBA, no Miami, se não me engano, mas acabou sendo dispensada antes de iniciar a temporada regular. Me fale dessa passagem.

Eu tinha contrato assinado. Eu não quis ficar por motivos pessoais. Foi bom para conhecer um mundo mágico, mas não teria saco para algumas coisas que acontecem lá com jogadoras estrangeiras.

27) Você ainda voltou em 2001 ao basquete, novamente em Americana e foi campeã paulista mais uma vez. Me fale desse recomeço e do sabor dessa conquista.

Agradeço ao Paulinho e à Unimed por isso. Foi gostoso demais, e realmente é um dos títulos mais queridos da minha carreira.

28) Na renovação de contratos, você acabou não ficando no clube, e se viu novamente de fora do basquete. Por que não surgiram mais convites desde então? Ou os que surgiram não valiam a pena?

Gosto da política e novamente foi uma escolha pessoal. Surgiram bons e maus contratos, mas não tinham a estrutura que me agrada.

29) Hoje, a que você está se dedicando?

Minha vida hoje é um projeto socio-esportivo chamado Escolinha de Basquete Karina. Estamos em 2 cidades com 1000 criancas. Estamos ampliando para mais de 10 cidades e recentemente obtivemos o apoio da secretaria estadual de esportes.

30) O basquete pra você é passado? Ou você ainda pensa em voltar a atuar? Me fale dos seu planos.

Sinto saudades e gostaria de jogar para que as crianças do projeto pudessem me ver. Tenho propostas, mas ainda nada definido.

31) O que você tem a dizer sobre as últimas participações da seleção brasileira, principalmente no que se refere ao desempenho no último Mundial?

Um ponto fez a diferença. Acho que o BARBA é a pesssoa certa. Apenas temos que dar tempo ao tempo.

32) Você acha que o Brasil consegue a vaga para as próximas Olimpíadas?

Sem dúvida.

33) Você acha que o basquete feminino consegue se reerguer? Ou vamos continuar vendo nossas atletas jogar no exterior e perdendo a força dos nossos torneios internos?

Se a cartolagem não mudar, deveremos ter tempos difíceis.

34) Será que a presença de ex-jogadoras como você, Paula, Hortência e outras em cargos de dirigentes ou técnicas pode dar um pouco mais de dignidade ao nosso basquete feminino?

Acho que sim, mas a nossa imagem incomoda. Espero que a Paula consiga fazer um bom trabalho em Brasília e aí as coisas podem começar a mudar!

35) Depois de 34 perguntas, um Bate-Bola pra encerrar:

Um sonho:Continuar sendo feliz
Um técnico: Maria Helena
Uma estrangeira:Kathy Bosuel
Uma quadra: Americana
O jogo que eu não esqueço: os Mundiais Interclubes
Uma música:”She”
Uma cidade: Campinas
Um filme: Ghost
Um livro: O Alquimista
Uma palavra: PAZ

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One Response to Karina Rodrigues (Junho/2003)

  1. roberto manduri disse:

    só encontrei essa entrevista hoje. muito legal.
    lembro-me da época em que havia a esperança de que a karina pudesse jogar pela seleção brasileira, mas os responsáveis por esse porcesso ficaram devendo isso para a história do basquete brasileiro. e como o tempo não volta, essa dívida jamais será paga.

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