Jacqueline Godoy (Março/2002)

(1) Jacque, quando, onde, com quem e por que você começou a jogar basquete? Você começou em Jundiaí? Fale um pouco da importância de Jundiaí para sua carreira, as principais pessoas que te incentivaram no início.

Comecei a jogar basquete com 9 anos no Colégio Divino Salvador, em Jundiaí. Minha primeira técnica e maior incentivadora foi a Jeanine. Na verdade, comecei a jogar basquete meio por acaso. Fui acompanhar uma amiga que participava da escolinha de basquete do Divino, quando a Jeanine, que era a nova técnica da escolinha, meu deu uma bola achando que eu fazia parte do time. Desde então nunca mais parei de jogar basquete.

Jundiaí foi muito importante, porque era um lugar onde eu estudava e jogava. Tambem a presenca do padre Olivo como “dono” do time, o que dava um caráter de uma grande familia e não apenas de um clube. Ainda hoje existe uma relacão de amizade entre os meus pais e pessoas como padre Olivo, Jeanine, Nestor e outras pessoas do Divino.

(2) A primeira vez que você disputou um Campeonato Adulto foi pelo Van Melle, de Jundiaí em 92. Estou certo? Como foi essa primeira experiência? Era um time bem jovem aquele, não era?

Para falar a verdade, não me lembro o ano, mas realmente a primeira vez que joguei pelo adulto foi pela Van Melle. No início foi difícil a adaptação com as meninas mais velhas. Como o grupo das meninas novas estava junto já há algum tempo existia uma diferença muito grande entre as atitudes das mais velhas e as da gente. Mesmo com as dificuldades iniciais a experiência foi ótima. Era uma equipe que não tinha pressão para jogar e também porque nos deu a oportunidade de jogar contra jogadoras mais experientes e melhores.

(3) Desde o início da sua carreira, você sempre foi apontada como uma jogadora de potencial estrondoso. A imprensa sempre fez muitas comparações e sempre esperou muito de você. Isso te atrapalhou? Como você lidou com isso?

É difícil saber se atrapalhou ou não, mas com certeza esta situação fez com que eu sempre me cobrasse muito. Pra mim não existia 99% certo. Se isso me ajudou ou atrapalhou nao sei dizer. Em relacao a lidar com isso, acredito que nunca fiz nada. Eu era muito nova e realmente não tinha a menor noção do que estava acontecendo. Para mim, jogar basquete era mais uma forma de me divertir.

(4) Após sair de Jundiaí, você passou alguns anos por várias equipes, com poucas oportunidades e participações discretas. Acredito que tenha sido a transição de juvenil para adulto. Você esteve em Santo André, Piracicaba neste intervalo. Gostaria que você falasse um pouco desse período de transição e de como você o enfrentou.

Na verdade nesse periodo, (Lacta – Santo André e Unimep – Piracicaba) eu era juvenil. Quando fui para Santo André, acredito que a maior mudança e consequentemente transição, foi em relacao a forma como eu vivia o basquete. Nesse momento, o basquete deixou de ser mais uma atividade no meu dia e passou a ser a minha profissao. Em Jundiai, nós estudávamos no período da manhã e treinávamos, no máximo, duas horas à tarde, o que me dava tempo para ficar com meus amigos e minha família. Em Santo André, eu passei a treinar das 8 às 10 da manha com o juvenil, das 10 ao meio dia com o adulto e das 4 às 6 e meia de novo com adulto. E com apenas 15 anos, eu não estava preparada para toda essa mudança na minha vida. Quando eu fui para Piracicaba, a situação foi totalmente diferente. Foi uma decisão pessoal e consciente, pela primeira vez eu tinha noção do que poderia acontecer.

(5) E nas categorias de base da seleção brasileira, quais foram suas principais participações e títulos?

Na minha época ainda não havia a seleção infanto, mas tive a chance de participar da seleção juvenil em dois sulamericanos, um panamericano e um mundial. Creio que minha principal participação, foi na seleção que foi ao Panamericano disputado no México e ao Mundial em Seul, porque tive oportunidade de jogar e eu ainda era infanto. Meus principais titulos foram Bi-Campeã Sul americana, Vice- Campeã Pan-americana e quinto lugar no Mundial.

(6) Em 1996, você reapareceu com maior destaque no time do BCN – Piracicaba que disputou as semifinais do Paulista contra Americana. O que significou essa sua passagem por Piracicaba e pelas mãos da Maria Helena?

O time do BCN foi um dos times mais unidos de que eu participei, era um grupo novo que estava com muita vontade de jogar e também porque tive a chance de conhecer a Ruthão, que sempre me deu a maior forca. A Maria Helena é uma grande técnica e com um estilo de jogo diferente do que eu jogo, isso me fez crescer e melhorar muito. Foi muito boa a experiência com a Maria Helena.

(7) Após a temporada por Piracicaba, você foi contratada pelo Data Control-Net, de Santa Bárbara d’Oeste e fez uma temporada muito boa num time de história curta, mas de basquetebol muito bom e bonito. Gostaria que você falasse um pouco do ambiente de trabalho com o técnico Edson Ferreto e com aquele grupo (Helen, Rosângela, Paty e Alessandra)?

Este foi mais um grupo novo e com muita determinação. Eu pessoalmente gosto muito do estilo de treinamento do Ferreto. Ele é o tipo de tecnico que exige 150% da jogadora todo segundo de treino ou jogo, mas ao mesmo tempo ele passa confiança para todas as jogadoras. O ambiente de trabalho era tranqüilo – ao meu ver a tranquilidade vinha da lideranca da Helen que lidava com tudo com muita calma e bom senso.

(8) Com o fim do time, a Hortência te levou para o Fluminense e você fez mais uma vez um campeonato de destaque. Gostaria que você falasse do momento da conquista do título nacional e da importância daquele título para você. É seu título preferido?

Quando a Hortência me fez a proposta de ir para o Fluminense, tenho que confessar que a princípio não me interessou. Eu gostava muito do grupo de Santa Barbara, que se transferiu para Goiás, e eu queria continuar com aquele grupo. Eu decidi ir para Rio depois de uma conversa onde o Ferreto e a Hortência me convenceram que a mudança seria benéfica para mim e para os dois times. Sem dúvida, o titulo do Fluminense é o meu preferido e também o mais importante.

(9) Não sei se você quer falar sobre isso, mas vou perguntar: após o Nacional, você foi convocada e era uma das surpresas da lista do técnico Antônio Carlos Barbosa. Mas a preparação para o Mundial foi corrida e o treinador teve pouco tempo para testar os nomes novos na equipe. No meio da preparação, você pediu dispensa da seleção. Você saiu pois sentiu que seria inevitavelmente cortada? Como foi esse momento para você?
 

Creio que a convocacao foi justa, pois eu realmente estava numa fase muito boa. O que ocorreu foi que durante a preparação eu recebi uma proposta oficial aqui dos Estados Unidos. Fiquei com duas opções, vir para cá e sair da seleção, ou tentar permancer na seleção e perder a oportunidade de vir para cá, pelo menos por mais um ano. Foi então quando conversei com o Barbosa e perguntei se ele teria uma posição definida quanto à minha participação no grupo, isto é, se eu seria cortada ou não. Ele disse que não tinha uma posição definida, daí eu decidi pedir a dispensa para poder vir para cá. Infelizmente, ouvi e li muitas coisas que não eram verdade, mas não guardo rancor de ninguém. Claro que foi com uma dor tremenda no coração que pedi dispensa da seleção. Creio que todo atleta sonha participar da seleção e aquela convocação talvez fosse a minha primeira convocacao “séria” para a seleção adulta.

(10) Logo após esse episódio, o time do Fluminense acabou. Hortência insisitiu para que você ficasse no Paraná, mas você preferiu ir tentar a sorte no basquete universitário dos EUA. Por quê? Você conhecia alguém que estava por aí? Como e por que surgiu essa decisão de jogar/estudar fora?

Antes de eu ser convocada para a seleção, eu já tinha decidido que viria para os EUA. Eu sempre gostei de estudar e, no Brasil, é quase impossível você estudar (sério) e jogar basquete. Você nunca sabe onde vai estar no ano seguinte, e também porque não faz parte da cultura brasileira conciliar estudo e esporte. Decidi vir para cá ainda quando estava em Santa Bárbara. Na época, a Dani (americana que jogava comigo) e o Duda (meu namorado) foram as pessoas que me ajudaram a fazer os primeiros contatos com as universidades. Durante a fase de preparação da seleção, recebi um telefonema de uma universidade (University of San Diego) me oferecendo uma bolsa de estudo. Como não falava inglês, vim para cá fazer um curso de ingles, pois para cursar esta universidade eu precisasria passar no TOEFL (teste de inglês), com um resultado muito alto. Infelizmente não consegui os pontos necessarios, então teria que esperar mais um semestre para comecar a estudar. Foi aí que através de uma amiga, a americana Susan, que jogou comigo em Santo André, recebi uma proposta de uma Universidade no Texas (Wayland Baptist University) e então fui de San Diego para o Texas onde joguei por dois anos antes de me transferir para a minha atual Universidade. Naquela epoca minha decisao foi muito mais baseada no estudo do que no basquete.

(11) Gostaria que você falasse um pouco como tem sido sua trajetória aí desde que você chegou, por quais universidades você passou, que campeonatos jogou, etc.

 
Como disse, joguei dois anos na Wayland Baptist University (Texas) e depois me transferi para Azusa Pacific University (Califórnia), onde me formarei em maio. As duas Universidades que joguei disputam a liga NAIA e nas duas participei do campeonato da Conferência, do torneio da Conferência e do campeonato Nacional. No meu primeiro ano aqui nosso time terminou em 2o lugar no ranking nacional, mas infelizmente nao fomos muito bem nos nacionais. No ano seguinte nosso time nao era tão bom, pois perdemos cinco jogadoras que se formaram, mas mesmo assim chegamos a ficar em sétimo lugar no ranking. Quando vim aqui para a Califórnia, o time estava começando a se firmar. Durante estes dois anos, o time foi bicampeão da conferência, bicampeão do torneio da conferência e se classificou para os nacionais duas vezes. Realmente para a universidade foi muito importante.

(12) Em uma de suas férias no hemisfério norte, você passou por aqui jogando pelo Quaker/Campinas. Gostaria que você falasse dessa experiência de voltar ao país, mesmo que em um período tão turbulento, em um time que não decolou.

É, caí de pára-quedas num time muito “diferente”. Mas na verdade foi o time perfeito para as minhas férias, nunca me diverti tanto jogando basquete como naquele time. Um grupo que apesar dos problemas que tinha sabia se descontrair, também com meninas como a Vânia Hernandes e a Aide não precisa de muito mais. Você tem razão, foi um momento muito turbulento, mas talvez porque eu estivesse feliz por estar jogando no Brasil de novo eu nao me incomodei com o que não estava dando certo com aquele time.

(13) O seu time (Cougar) disputa a NAIA. A liga universitária mais badalada e conhecida dos brasileiros é a NCAA. Quais as diferenças entre essas ligas?

 

Realmente, a NCAA é a liga mais importante aqui. A NAIA é a liga para as escolas chamadas pequenas (média de 2 a 5 mil estudantes). A grande diferenca é que as escolas da NCAA têm muita grana pra investir no esporte. Quando eu falo muita grana, é muita grana mesmo. Tem escola que gasta mais de 40 milhões de dólares ao ano com o departamento esportivo. A NCAA tem três divisões, e cada divisao tem uns 300 times. Outra coisa que difere a NAIA da NCAA é quanto ao limite de idade dos atletas- na NAIA não existe limite de idade para jogar, enquanto na NCAA só se pode jogar ate o ano em que voce faz 24.

(14) Fale um pouco do seu time, da sua universidade, do sistema de treinamentos aí.

A minha universidade é uma universidade cristã, tem aproximadamente 4500 estudantes e é muito famosa pelo departamento de Mésica. O meu time, ou melhor, meu ex-time já que os campeonatos já acabaram e eu me formo em maio, era um time formado por sete “seniors”- último ano de elegibilidade para jogar- o que fazia do time um time muito experiente. Quanto ao sistema de treinamento, tudo é muito diferente. Aqui treinamos apenas um período por dia (mais ou menos 3 horas), também o volume de treinamento é menor, o que não me agradou muito. Mas a estrutura é fantástica, mesmo sendo uma escola “pequena”. O departamento médico, (training room como eles chamam aqui), o vestiário, qualidade do material (bola, quadra, etc…), programação, calendário e etc são muito bons.

(15) Qual a classificação do seu time dentro da liga?

A liga é dividida em vaáias conferencias. Cada conferência tem o seu campeonato (todo mundo contra todo mundo) e o seu torneio (mata-mata), e depois tem os nacionais onde apenas os 32 dos 130 times da liga se classificam. Coquistamos o título da conferencia e do torneio da conferência, e terminamos o ano em 17o no ranking nacional. Mas perdemos na primeira rodada no campeonato Nacional.

(16) Sua performance vem sendo muito elogiada aí. Gostaria que você falasse da sua participação nesta temporada pelo time.

Creio que meu estilo de jogo e diferente da mentalidade fominha das americanas. Isto acabou sendo muito postivo para o time, porque as meninas perceberam que elas poderiam continuar fazendo pontos e jogar como time. Acredito que minha experiência também tenha sido um fator importante para o time. No Brasil, jogamos jogos pauleira e tensos desde de novas, o que nos dá muita bagagem.

(17) Você está no seu último ano, não é? Quais são seus planos profissionais para o futuro?

Ainda não decidi o que vou fazer. Existe a chance de ir jogar na Europa, e recebi convite de um time da WNBA para participar do try-out, isto é, a famosa peneira. Isto, para falar a verdade, é muito gratificante, pois a NAIA não e muito observada pelos técnicos da WNBA, e só de ter sido convidada me sinto feliz. Como eu adoro o basquete, não sei se estou preparada para me aposentar, mas tudo ainda é muito incerto. De certo sei que quero ser técnica e para isso preciso ter mestrado, o que provavelmente será meu próximo plano se eu decidir parar de jogar.

(18) Você pensa em voltar para o basquete brasileiro?

Não no momento, mas tenho muita saudades de jogar no Brasil. Brasil é Brasil e ponto final!!!

(19) Você pensa em seleção brasileira novamente? É um sonho que permanece mesmo à distância?

CLARO !!! Como disse antes, acho que deveria ser o sonho de todas as jogadoras. Sei que o Barbosa não teve chance de me acompanhar aqui nos EUA, mas como a maioria das jogadoras estão no exterior, espero que ele não tenha se esquecido de mim. Por falar nisso, fiquei super feliz com a resultado da sua enquete, e obrigado a todos que votaram em mim. Espero não decepcioná-los caso tenha a chance de ir para seleção.

(20) O que você espera da seleção brasileira para o Mundial deste ano?

Eu acho que a Brasil tem boas chances de se manter entre as grandes equipes mundiais. Temos boas jogadoras que estão participando de campeonatos no exterior, o que faz com que elas ganhem mais experiencia e confiança.

(21) Bate-Bola pra terminar:

A bola que eu chutei e caiu: As de 3, na final do Nacional contra o BCN
A bola que eu chutei e não caiu: Dois lances livres na semi-final dos jogos Abertos – Unimep x Paulínia(?)
A minha maior virtude em quadra: Visão de quadra
O meu pior defeito em quadra: Defesa
Uma quadra: Alçapão do Padre – Quadra do Colegio Divino Salvador
Uma amiga: Duas – Renata Chagas e Danna Wilder
Uma estrangeira: Vicky Bullet
Uma marcadora: Nádia (BCN)
Um(a) técnico(a): O(A) técnico(a) que me exige 100% e é sincero(a).
Um time: O time de Jundiaí- Gabriela, Érica, Renata, Karen, Simone, Patrícia…
Um título: O Nacional pelo Fluminense
O jogo que eu não esqueço: O quinto jogo entre Fluminense e BCN pelo campeonato Nacional
O jogo que eu tento esquecer: O jogo contra Point Loma no ano passado, nossa única derrota na Conferência.
Um sonho: Ser técnica de um time profissional aqui nos USA.

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