Branca (Maio/2008)

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Goste-se ou não de Branca, deve se admitir o que a move: a paixão. Em mais um reencontro com a ex-armadora da seleção brasileira, o papo corre solto, recheado de gargalhadas, declarações e expressões inusitadas, sem perder o compromisso com a sinceridade, nem evitar suas (admitidas) contradições. Atualmente envolvida com o Instituto Passe de Mágica, Branca comenta o presente, fala do desejo de voltar às quadras como técnica e analisa o momento do basquete feminino. 

1. Branca, nos últimos dois anos, você passou a se dedicar à direção do Instituto Passe de Mágica. Queria que você falasse um pouco desse projeto, sua composição e dos resultados que vocês têm obtido no que me parece ser o objetivo fundamental dele: a inclusão social.

Felizmente, hoje, não sou apenas uma idealizadora do projeto, sou uma funcionária. Estou à disposição dele e sou remunerada por isso. Tento fazer sempre o meu melhor, ajudar à Paula, os profissionais envolvidos, às empresas parceiras; sem deixar de ser eu mesma.

Temos critérios bem definidos: a criança deve freqüentar a escola e a renda familiar deve ser inferior a um salário mínimo e meio per capita. Todas as crianças foram recadastradas nesse ano. Brinco que já são 360 filhos postiços. (Risos).

O projeto é simples, mas ainda vai crescer muito. Adquirimos a chancela do Ministério do Esporte pela Lei de Isenção Fiscal; e, brevemente, a Paula vai estar conosco em tempo integral, o que será uma grande força.

Realmente, é encantadora a possibilidade de inclusão social pelo esporte. Isso me agrada mais do que simplesmente uma bola caindo na cesta. E isso acontece no dia-a-dia do Instituto. No mês passado, por exemplo, as crianças de Piracicaba assistiram palestras com o psicólogo Luiz Xavier. Já em Diadema, em função das reformas do alambrado da quadra do Senai, a professora Vânia criou uma série de dinâmicas extra-quadra. Essas vivências são muito especiais.

Sonho com a nossa sede própria, em implantar nossa metodologia e conseguir mais recursos para as crianças e os profissionais do Instituto.

2. Imagino que mesmo com a dedicação ao projeto, você deve estar sentindo falta do trabalho nas quadras como técnica. Você pensa em voltar?

Claro que sinto falta! Ser treinadora é o meu propósito. Adoro programar treinos, pensar na competição, estudar os adversários. Adoro competir.

Tenho convicção de que um dia volto às quadras. Acredito que o que tiver que ser, será!

Sei que um dia vou ter uma proposta decente, ou melhor, uma oportunidade em que eu possa combinar minha dedicação ao talento.

Não faço disso uma neura, um só objetivo. Prefiro que tudo seja natural e em função da minha competência, não política ou dinheiro.

3. Você se dedicou a essa função (treinadora) na equipe de Piracicaba. Sua casa é em Piracicaba, uma parte da sua história (bem como da Paula) se passou na cidade; há ainda a tradição da cidade no basquete, bem como da própria Unimep. A cidade tem ainda pessoas interessadas na modalidade, tem público. Mesmo assim, sua trajetória em Piracicaba foi complicada, sempre com orçamentos muito baixos, poucos apoios… Sobre isso, queria que você tentasse explicar por que é tão difícil assim manter um time de basquete?

Piracicaba mantém a equipe sim, que se prepara para os Jogos Regionais e Abertos. Acompanho pelos jornais da cidade: os treinadores (Marquinhos e Ana Chrisofoletti) pretendem disputar torneios amistosos antes dessas competições. É só o que sei.

Quando decidi sair de Piracicaba, obviamente pensei em tudo. Foi dolorido, foi frustrante. Mas ideal também tem limite. Na minha concepção, ninguém pode se expor tanto, a ponto de sentir gosto de fel no trabalho. Tô fora.

Sou apaixonada pelo trabalho. Amo o que faço, sou intensa, gosto de me sentir útil. Então, não suporto fazer algo sem dedicação, ser indiferente. Jamais ficaria esperando meu salário, acumulando empregos e o basquete sendo apenas mais um.

O apoio só vem pra quem obtém resultados. Mas resultados só aparecem com o mínimo de investimentos e, em Piracicaba, nos faltou o mínimo em várias ocasiões.

Ninguém deve passar pelo que eu tinha que passar. Confesso ter sido sensacional a experiência. O basquete não mudou. E quem insiste em não mudar são várias pessoas que nele militam: fazendo promessas e insistindo em não cumprir, com egoísmo exacerbado, com a mediocridade imperando, com a prepotência.com.br, e a falta de caráter, deixando de lado os seres humanos.

Que péssimo! Mesmo assim, é pelo basquete que quero trabalhar (Risos).

Parece até incoerência. Quem me conhece, sabe o que estou falando, sabe muito bem. Resolvi minhas mágoas. Isso me faz dormir em paz todos os dias.

4. Em Piracicaba, um dos diferenciais que você tentou implantar foi inserir as atletas na universidade. Isso é uma coisa em que você acredita ou foi uma conseqüência do apoio da Unimep? Qual a importância da educação na carreira de uma atleta?

Eu mesma demorei um tempão para me formar. Confesso que, em parte, foi um pouco de safadeza e preguiça mesmo. (Risos).

E então comecei a pensar: as minhas atletas iam para a escola junto comigo. Não havia coisa melhor.

Depois de anos dedicados ao basquete, o que fica é o privilégio de estudar através do esporte. Por que não aproveitar essa oportunidade?

E, atualmente, nada acontece sem um diploma.

5. Dentro de quadra, faz diferença treinar uma atleta que abandonou os estudos e uma outra, que freqüenta um curso universitário?

Observo que, atletas que estudam, por terem outros ciclos de amizades e exigências, são menos “neuróticas” nas quadras. Quando não vão bem no jogo, ou estão em uma fase, elas já querem retomar, para novos desafios, seja treinando forte, seja seguindo trabalhos na escola.

Aquelas que não estudam pensam exclusivamente no treino, no excelente jogo que fizeram. Aí se deslumbram e acham que sabem tudo. Ou no jogo ruim, o contrário. Acabam dando muita ênfase no positivo e negativo. São mais extremistas.

Quem estuda tem um grau, quer queira ou não, de conhecimento mais aguçado, desenvolvido. São mais estimuladas, justamente por buscar o conhecimento. Estimuladas a pensar, criar, fazer diferente. Manter o cérebro ativo é fundamental.

Mas nem tudo é receita de bolo. Manja aquela história de comprar um tênis do Jordan pra jogar como ele? Não rola.

6. Como técnica, quem são suas referências? Se você pudesse resumir o que é fundamental no seu esquema de jogo, o que você diria?

São muitos técnicos que admiro. Gosto muito do Paulo Bassul. Gosto da velocidade de reação do Ferreto. Das imortais Maria Helena e Heleninha. Do Vendramini, do Neto… São muitos. (Risos).

Em relação ao esquema de jogo, o fundamental é saber jogar. Tática, filosofia de jogo só é bom para quem sabe jogar.

Acredito que deve adequar-se as potencialidades e possibilidades individuais da equipe às características dos adversários.

7. Junto a você, outras ex-jogadoras também estão almejando a carreira de técnica (Vanira e Janeth, por exemplo). Você enxerga uma possibilidade de aproveitamento real de você e dessas outras novas técnicas num mercado tão fechado?

Muitos sabiam do meu desejo de ser treinadora, porém eu nunca faria lobby por trás para entrar em qualquer equipe. Minha entrada no mercado foi por convite e não por imposição. Quero ter esperança que as portas serão abertas para cada uma de nós por competência.

8. No último Pré-Olímpico, a Iziane foi muito criticada em função do excesso de confiança, que estava por trás de sua insistência por arremessos equivocados. Provavelmente, você já deve ter enfrentado uma questão semelhante. Primeiro, queria que você contasse se como armadora, já jogou ao lado de alguém que por excesso de auto-confiança, acabava por prejudicar o time. E se sim, como você lidou com isso? E como técnica, qual você acha que é a melhor maneira de controlar um talento tão auto-confiante assim?

Para jogar na seleção brasileira é preciso espírito coletivo e muita renúncia. Sou prova viva disso. Fui vetada por alguns técnicos quando jogava, alegando que eu não era boa para grupo. Mas nunca ninguém me orientou como deveria proceder ou onde poderia mudar e consequentemente melhorar.

Sinto que muitos colocam Iziane num pedestal e temem advertí-la. Quais são os títulos da Iziane? Títulos em pontos por partida? Sinceramente, o que falta é alguém ser real com ela fora das quadras, porque ela é nova e pode contribuir muito mais para seleção e clubes por onde passar.

Meu aviso é: Bassul, é sua função, como educador, orientar essa moça que é boa de bola.

9. Na sua trajetória como jogadora, você enfrentou um momento do basquete bem diferente do atual. A modalidade passou de um estágio muito amador a um período de exposição e valorização extremas, seguido de uma desvalorização progressiva. Que leitura você faz dessa história recente do Brasil no basquete? Em pouco tempo, deixamos de importar grandes jogadoras estrangeiras, ter campeonatos milionários e presenciamos um êxodo fenomenal de jogadoras para a Europa. Que análise você faz dessa mudança e da repercussão dela sobre o perfil da geração que hoje defende a seleção?

O basquete reflete as mudanças econômicas no país. E essa gangorra fez a nossa geração experimentar o doce e o amargo.

Havia, naquela época, dólares e caixa-dois. Escolheram o basquete feminino em função de dois fenômenos: Paula e Hortência. Elas nos moviam ao sucesso. E o exemplo vinha das duas. Realmente, nunca houve frescura para o trabalho duro e incessante. Sabíamos o que queríamos.

Realmente, a geração de hoje é diferente em tudo: nos sentidos, nos prazeres, com raras exceções. Muitas não sabem contra quem vão jogar. Não sabem por que treinam determinados exercícios. O celular fica ligado durante os treinos (Risos). Está lá no treino de corpo presente, mas a alma voa.

Se minha alma voasse nos treinos da Maria Helena, já sabia que o banco seria meu aeroporto. (Gargalhadas).

O técnico hoje pede para atletas fazerem uma série de duzentos arremessos convertidos. Elas demoram uma hora e você não sabe se é falta de competência ou de mira; ou se elas querem cabular o treino. Na minha época, Paula, Hortência, Vânia Teixeira faziam quinhentos arremessos em vinte minutos. São diferenças que nem podem ser comparadas, mas já estou comparando.


Na Europa, feras como Alessandra, Helen, Silvinha e Claudinha, são muito exigidas. A grande maioria está lá para contribuir com o talento peculiar do brasileiro.

10. Você tem acompanhado o basquete? Queria que comentasse um pouco da troca do comando da seleção feminina, o que você achou?

Foi uma troca necessária e tardia. Assisto pouco ao basquete. Vou ser bem sincera: embora ame o basquete e queira trabalhar como treinadora, não consigo assistir.

Confesso: é uma relação louca. Mas ao mesmo tempo fico tranqüila, quando encontro outras pessoas que militaram no basquete ou até na fila do banco, dizendo o mesmo.

É uma cilada. Parece uma incoerência da minha parte. Quero crer que seja pela falta de obediência ao jogo, pela técnica menos apurada ou mesmo a plasticidade da coisa.

Me perdoe, sei e não sei explicar.

Carrego o prazer de ser competitiva.

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